Prostitutas do Rio se preparam para Copa de olho nos gringos

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Quem quiser dar uma esticadinha após uma partida no Maracanã durante a Copa do Mundo pode andar apenas 2 km até a Vila Mimosa – uma das regiões de prostituição mais famosas do Rio de Janeiro – que promete fazer uma bonita festa em dias de jogos do Mundial com decoração bem brasileira, nas cores da bandeira da Seleção.

Em dias de jogos do Brasil haverá uma programação especial com direito a telão na rua, churrasquinho e meninas, muitas meninas, vestindo roupas bem brasileiras e provocantes. Caso consiga apoio dos comerciantes da região, a Associação de Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (Amocavim) garante que a festa será mais animada ainda, com rodadas de cerveja a R$ 3 durante todas as partidas.

“Em 2010, o público durante a Copa não foi muito grande, embora tenhamos colocado um telão e feito uma festa bacana. Mas esse ano, com a Copa do lado de ‘casa’ e com o turismo superaquecido, esperamos muitos visitantes. Vamos conversar com os comerciantes da Vila para que nos dias de jogos do Brasil possamos oferecer churrasquinho de graça e cerveja a R$ 3. Depois da partida o valor volta ao preço normal de R$ 8. Vamos trazer também uma bateria de um bloco da Lapa que já fez uma música para a Vila Mimosa, e queremos lançar o nosso bloco”, revelou a assistente social da Amocavim, Cleide Almeida.

Com uma média de 5 mil frequentadores por dia, comerciantes da região esperam que esse número dobre durante o Mundial e que os bares fiquem lotados 24 horas por dia. Nos últimos meses, a procura de garotas de programa por um lugarzinho em uma das 150 casas do local aumentou significativamente. Hoje trabalham na Vila Mimosa aproximadamente 4.500 profissionais do sexo, mil a mais que no ano passado.

“A procura para trabalhar aqui aumentou bastante, principalmente, nos últimos meses. Mas a maioria das mulheres que trabalham aqui já está na região há muito tempo. Claro que em épocas festivas antigas frequentadoras sempre voltam para faturar um pouco mais de dinheiro”, disse Cleide, que revelou que a prostituta mais antiga da Vila Mimosa está com 77 anos.

“Hoje temos mulheres de 18 a 77 anos trabalhando na Vila Mimosa. Essa senhora mais velha havia sido prostituta quando mais jovem, casou e alguns anos atrás ficou viúva, e por uma questão de necessidade financeira teve que voltar para a vida. À noite ela trabalha como cuidadora de um idoso e durante o dia vem aqui fazer um bico. E olha que tem muito garotinho que a procura”, completou.

Já para a jovem de 18 anos M., há apenas sete meses na “vida”, como gosta de falar, a chance de conhecer um gringo durante a Copa do Mundo é grande, e por isso ela pretende permanecer no local até o Mundial.

“Vim para cá pensando em ganhar um dinheiro extra e encontrar um gringo que me leve embora desse país e me dê uma vida tranquila. Não quero luxo, mas só viver com um pouco mais de dignidade e poder ajudar a minha família”, falou a estudante, que está cursando o último ano do ensino médio.

Mas não é só de apoio para pintar e enfeitar a região durante a Copa do Mundo que a Vila Mimosa precisa. Completamente abandonado pelo poder público, o local vem sofrendo com a falta de coleta de lixo, esgoto a céu aberto tanto dentro da principal galeria que abriga as casas de programa como nas ruas ao redor, além de garis para varrer as ruas da região.

De acordo com R., 18 anos, que informa que se prostitui há pouco tempo, os garis nunca aparecem lá para trabalhar, mas sim para fazer programa. “Gostaria muito de ver garis trabalhando aqui também. Mas eles só aparecem aqui para fazer programa. E o pior é que vem tudo uniformizado”, disse aos risos a jovem.

Ao adentrar a galeria principal da Vila o odor forte de esgoto é o primeiro anfitrião. O problema já virou caso de saúde pública, já que muitas mulheres acabam ficando com alergias e até doentes por pisar em bueiros e buracos com água poluída. Segundo M., 28 anos e há cinco trabalhando no local, a situação é pior em dias de chuva forte ou calor intenso.

“Quando chove forte ou faz um calor ferrado isso aqui fica um inferno em todos os sentidos, mas o pior é o fedor insuportável que afasta a maioria dos clientes. Em dias de chuva forte os bares da frente ficam embaixo d’água e os do fundo alagam até um metro. Depois que a água baixa fica um cheiro horrível. Esperamos que essa obra da Praça da Bandeira contra enchentes funcione”, disse a mãe de dois filhos, que, segundo ela, só está nesta vida por que não conseguiu outro emprego.

“Tenho várias amigas aqui que já ficaram doentes por causa desse esgoto. Sem querer pisam nessa água suja e depois pegam doenças e não podem nem trabalhar. Aqui todo mundo paga imposto nas casas e todo mês chegam as contas de luz, água, esgoto e gás. Só não chega os serviços que os comerciantes pagam para a prefeitura”, completou.

Sonhos e projetos 

A Amocavim vem buscando parcerias com instituições privadas, inclusive internacionais, públicas e com as três esferas de governo, para construir a Cidade das Meninas e o Museu do Sexo. Os projetos são orçados em cerca de R$ 4 milhões e estão enquadrados na Lei de Incentivo à Cultura. Segundo Cleide, há interesse de empresários estrangeiros em patrocinar as obras, mas nada ainda foi assinado.

O projeto da nova Vila Mimosa é inspirado em traços de Oscar Niemeyer e será dividido em dois complexos com cinco módulos, num total de 1.825 metros quadrados. O espaço contemplaria um anfiteatro, creche, salas de aula para diversos cursos, posto de saúde e escritórios, além de um estacionamento para 70 carros.

Já no Museu do Sexo será exposto um acervo contando toda a história da Vila Mimosa, desde os primórdios da zona de prostituição ainda no Mangue, no século XIX, até os dias de hoje, na região da Praça da Bandeira.

Documentos, filmes, fotos, réplicas de roupas e recortes de jornais farão parte do acervo permanente. De acordo com Cleide, um dos documentos mais interessantes que é guardado até hoje são as carteirinhas funcionais de prostitutas.

“Nos anos 70 as profissionais do sexo eram obrigadas a andarem sempre com as suas carteirinhas. A ordem era da polícia, e caso não estivessem com elas na hora da abordagem, eram levadas à delegacia. A nossa ideia é reunir um acervo mostrando toda a história da Vila Mimosa”, concluiu a assistente social.

 

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