Desde a pandemia de Covid-19, o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) passou a ser observado com mais atenção também entre adultos e idosos, deixando de ser visto apenas como uma infecção comum da infância e se tornando uma preocupação crescente na saúde pública. Dados apresentados à imprensa em um evento realizado em São Paulo no último dia 7, promovido pela GSK, reforçam o alerta sobre a gravidade da doença em faixas etárias mais avançadas e em pessoas com comorbidades. Relatos clínicos indicam que, após a Covid-19, houve aumento de casos mais severos em adultos, muitos deles evoluindo com complicações importantes como pneumonia, internações prolongadas e óbito de pacientes.
A pneumologista Rosemeri Maurici, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, explica que o VSR hoje é melhor identificado graças à ampliação dos testes diagnósticos, o que mudou a percepção da doença.
Ela ressalta que pacientes internados apresentam impacto duradouro na saúde. De acordo com a especialista, um em cada seis pacientes hospitalizados pode morrer e muitos enfrentam o que ela define como morte social, passando a depender de oxigenoterapia e sem retornar ao estado funcional anterior.
Já o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, chama atenção para a ampla disseminação do vírus ao longo da vida e sua maior gravidade nos extremos de idade (crianças menores de dois anos e idosos). Ele afirma que o VSR apresenta padrão sazonal, com até 80% das internações ocorrendo em períodos específicos do ano, embora esse comportamento tenha sido desorganizado pela pandemia. Kfouri também destaca a alta transmissibilidade dentro das residências, onde uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até três outras, além do risco elevado de transmissão entre crianças e idosos. Ele reforça que o diagnóstico ainda é um desafio, principalmente porque adultos demoram mais a procurar atendimento.
A geriatra Maisa Kairalla, presidente da Comissão de Imunizações da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, ressalta que o envelhecimento, por si só, já representa um fator de risco importante, uma vez que o sistema imunológico perde eficiência ao longo dos anos. Ela afirma que pessoas com mais de 70 anos podem acumular múltiplas doenças crônicas, o que agrava ainda mais o impacto do VSR. Segundo a médica, um em cada quatro adultos infectados pode desenvolver pneumonia, e o risco de internação em UTI e necessidade de intubação pode dobrar. Ela também alerta para a perda de qualidade de vida após a hospitalização e defende a vacinação como um ato de responsabilidade coletiva.
Os dados apresentados mostram ainda que o VSR é pouco conhecido pela população brasileira, com menos de um terço dos adultos em risco sabendo o que significa a sigla e a maioria desconhecendo a existência de vacina. Nos últimos anos, o vírus foi a principal causa de Síndrome Respiratória Aguda Grave no Brasil no primeiro semestre, chegando a representar mais de 45% dos casos. Mesmo assim, há baixa percepção de risco, especialmente entre pessoas com doenças crônicas, apesar de evidências indicarem maior probabilidade de complicações graves e hospitalizações nesse grupo.
O impacto do VSR também se estende a outras áreas da saúde. O cardiologista Múcio Tavares, professor da Faculdade de Medicina da USP, afirma que pacientes com doenças cardíacas são mais vulneráveis e podem apresentar agravamento do quadro após a infecção. Ele destaca que a inflamação causada pelo vírus aumenta o risco de eventos como infarto e acidente vascular cerebral, sendo que o risco de infarto pode ser até três vezes maior na primeira semana após a infecção. Já o endocrinologista Rodrigo Mendes aponta que o VSR também afeta o metabolismo, especialmente em pessoas com diabetes, que representam uma parcela significativa dos casos graves. Segundo ele, a doença pode descompensar o controle glicêmico e tornar o tratamento mais complexo.
Além disso, fatores como obesidade, doenças pulmonares crônicas, insuficiência renal e imunossupressão aumentam significativamente o risco de complicações. Dados brasileiros indicam que 38% dos hospitalizados por VSR têm obesidade e que, ao longo de uma década, a maioria dos casos graves esteve associada a doenças cardiovasculares.
Especialistas alertam que, sem uma cultura de prevenção, o cenário tende a se agravar, especialmente diante do envelhecimento populacional, visto que até 2050 a população acima de 60 anos deve superar a de jovens.
Diante desse cenário, a vacinação surge como a principal estratégia de prevenção para adultos, especialmente aqueles com mais de 50 anos ou com fatores de risco. Atualmente, existem duas vacinas disponíveis, com tecnologia proteica e alta capacidade de gerar resposta imunológica prolongada, podendo oferecer proteção por até três anos. Ambas estão disponíveis na rede privada. No entanto, a adesão ainda é baixa, muitas vezes pela falta de recomendação médica ou desconhecimento. Especialistas reforçam que, além da imunização, medidas simples como higienização das mãos, etiqueta respiratória e evitar contato com pessoas doentes continuam sendo fundamentais para conter a disseminação do vírus.
Fonte: Acrítica









