Na seca extrema, população fura poços em busca de água potável, em Manaus

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Manaus – A seca extrema que atinge o Amazonas ameaça a existência dos rios, da vegetação e também da população que vive às margens dos cursos d’água. Em Manaus, o recuo do Rio Negro, maior afluente da margem esquerda do Rio Amazonas, deixou pontos da cidade completamente secos.

Lagoas formadas pelos rios Negro, Solimões e Amazonas secaram por completo, e algumas comunidades ficaram sem água potável. Uma dessas regiões é a do Lago do Puraquequara, que fica a cerca de 27 quilômetros do centro de Manaus. No local, há uma comunidade vivendo sob flutuantes que hoje estão presos no chão seco onde antes havia água.

Com a situação, moradores furaram poços simples, também chamados de “cacimba”, em busca de água potável. Uma dessas pessoas é Isac Cícero Rodrigues, que furou um poço no local do lago. Com uma bomba, a água é levada para os flutuantes nos quais vivem as famílias enquanto os barcos estão todos atolados.

As famílias que trabalham nessas lojas e comércios flutuantes ficaram sem renda e sem água durante esta seca histórica. Segundo a Defesa Civil do Estado, todos os 62 municípios do Amazonas estão em estado de emergência, e ao menos 598 mil pessoas (cerca de 15% da população do Estado) foram afetadas.

O poço foi feito por Isac Rodrigues ainda em setembro — segundo ele, diante da inércia do poder público. O homem mora com a esposa e a filha, e aguarda com esperança o fim desta dura seca.

“Fomos obrigados a cavar essa cacimba aqui. É água limpa, é o único recurso que temos. Travamos uma luta. Eu trabalho com venda de gelo no flutuando, mas agora não tem nem como. Nós congregamos em uma igreja e a ajuda que a gente tem é de lá”, disse.

O idoso Otenício Ricardo Lima, de 77 anos, também trabalha com flutuantes e foi o outro morador responsável por um segundo poço que ajuda a abastecer as famílias com água potável durante a seca. “Quando furei não tinha mais água para beber”, conta.

O homem trabalha guardando barcos no lago, mas com a situação, perdeu a renda, que era de cerca de R$ 5 por dia dos donos dos barcos.

As famílias que vivem do lago Puraquequara atuam, no geral, em comércios flutuantes e fazem viagens de barcos com turistas. Há no local, ainda, um pequeno porto, por onde saem embarcações com alimentos para cidades do interior.

Quando há água, muitos retornam para as suas casas na região seca do entorno do lago. Sem água, ficaram todos ali em meio à lama, cuidando dos flutuantes, mas sem qualquer estrutura. Moradores relatam que como não há banheiro, defecam em matos nos arredores.

Fora do lago, mas ainda na região de Puraquequara, muito moradores atuam com a pesca e estão sem renda durante a seca. No último sábado (4/11), Aldenora Alves, de 42 anos, aguardava, sem muita esperança, que chegasse algum carregamento de peixes.

A mulher costuma trabalhar com mais um grupo de pessoas limpando peixes. Eles ganham R$ 30 a cada 100 peixes limpos e preparados para a venda. Na última semana, no entanto, ela e outras três mulheres conseguiram apenas um carregamento de 150 peixes, o que rendeu R$ 45 dividido entre as quatro.

“Está muito ruim. Não tivemos ajuda de ninguém. Governo só aparece em época de eleição, mas abandona a gente no momento de dificuldade”, afirmou. Aldenora contou que nem em períodos de cheia elas conseguem, cada uma, um salário-mínimo, e que agora a situação está ainda pior.

“Estamos esquecidas. Ninguém veio aqui. E está faltando alimento, porque é daqui a gente tira nosso alimento.”

A comerciante Raimunda Braga, de 46 anos, possui um restaurante na região do lago de Puraquequara, e conta que com a seca, tem enfrentado muita dificuldade. “O reflexo para vendas é grande”, diz.

O que diz o poder público

O governo do Amazonas afirmou que não recebeu nenhuma solicitação da Prefeitura de Manaus para o envio de ajuda humanitária à região do Lago do Puraquequara.

Em nota, o governo disse ainda que “já entregou 83 mil cestas básicas, totalizando 1.462 toneladas de alimentos, beneficiando 83 mil famílias afetadas pela estiagem”.

“Em 30 dias, foram entregues ajudas humanitárias, coordenada pela Defesa Civil do Amazonas, para 51 municípios”, defendeu. Além de alimento, o governo pontuou que enviou kits de higiene, medicamentos e água potável.

A Prefeitura de Manaus afirmou, por sua vez, que levou água e mantimentos para a área do Lago do Puraquequara, somando 263 famílias atendidas. “As famílias receberam água potável, kits de higiene e cestas básicas”, afirmou.

Em nota, a gestão municipal disse que mapeou “75 comunidades afetadas pela estiagem e montou uma força-tarefa envolvendo diversas secretarias municipais para levar assistência humanitária às famílias que sofrem os efeitos da maior seca já registrada na cidade”.

A operação foi iniciada em outubro e distribuiu, segundo a prefeitura, “mais de 5 mil cestas básicas, mais de 4 mil kits de higiene e mais de 37 mil litros de água potável, beneficiando mais de 22 mil moradores ribeirinhos da capital amazonense com mantimentos duráveis para cerca de um mês”.

Já o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional afirmou em nota que “os recursos aos municípios afetados pela estiagem no Amazonas foram repassados para a compra de itens de assistência humanitária, que incluem cestas básicas, água e combustível para a distribuição de mantimentos”.

“Os recursos são destinados diretamente aos entes”, informou. Com informações de metrópoles.

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