PEIXE E TUCUMÃ

0
453

Por Felix Valois

Nossa decantada hospitalidade não tem sido muito bem reconhecida ultimamente. Primeiro foi o triste episódio do técnico da seleção de futebol da Inglaterra, que, esbanjando ignorância, disse cobras e lagartos da terrinha, revelando um acendrado medo de tarântulas, as quais, segundo ele, estariam a passear comodamente em nossas ruas e praças, prontas para a aplicação de exemplares ferroadas nas brancas pernas britânicas.

Agora, minhas filhas me mostram um vídeo em que uma senhora, com voz esganiçada e a título de reclamar da prestação de algum serviço, vociferou que os amazonenses “só sabem comer peixe e descascar tucumã”.

amazonino_tucumã

Não com essa singeleza linguística, eis que, tamanho era o ódio, os dois substantivos foram devida e rasteiramente qualificados por palavrões cabeludos, passando a criatura aquática a ser “porra do peixe”, enquanto o vegetal foi promovido a “caralho de tucumã”.

Tudo, como se vê, muito civilizado, a revelar o elevado grau de cultura e educação doméstica da revoltada consumidora.

Na minha santa ingenuidade só não consegui entender o que a dama há de ter contra os dois produtos, integrantes de nossa dieta e contra os quais, até agora, nunca tinha ouvido dizer nada que não fossem elogios. Mas não seria eu a discutir gostos, até porque mesmo para ser um idiota completo é necessário um mínimo de talento e imaginação.

Coisas de que, pelo visto, não parece ser bem provido o farnel cultural da dita senhora. Assim não fora e poderia ela ter buscado maiores e melhores informações sobre a razão de ser das preferências culinárias que os caboclos nutrimos, dando valor à farinha do Uarini e indo à cata da verdadeira murupi, que, misturada a um tucupi autêntico, torna qualquer coisa deliciosa.

Descascar tucumã é chato, tenho de reconhecer. E trabalhoso. Entretanto, comer-lhe as carnes, não digo que seja tão saboroso quanto há de ser uma noite com a Nicole Kidman, mas tem um valor imponderável. Meu conselho: arranje quem descasque e coma, pura e simplesmente.

E deixe de leseira. Há de ver que basta completar com a farinha para degustar um cardápio da melhor qualidade. Se isso não bastar, forneço uma receita particular.

Retire o feijão da geladeira e coloque num prato, sem levar ao fogo ou ao micro-ondas. Tenha o cuidado de já ter mandado descascar e cortar coisa de dez tucumãs. Sobre o feijão coloque as lâminas da fruta e despeje molho de pimenta murupi, no tucupi ou no azeite. Se não gostar, é doido.

Digamos, porém, que seja irreversível a aversão da consumidora indignada. Ainda assim não deveria ela revelar tamanho desprezo, pois o tucumã é capaz de lhe proporcionar uma atividade que, por exigir paciência, contribuirá para lhe diminuir o estresse, evitando uma crise nervosa como a que foi objeto da filmagem.

Refiro-me à confecção dos famosos “botões de tucumã”, atividade em que, na infância, éramos expertos eu e os da minha idade.

Com o tucumã já devidamente saboreado (não pela senhora, é claro, mas por alguém que seja normal), limpe-lhe bem o coco e quebre-o tão pela metade quanto seja possível. Daí por diante, dê-se ao trabalho de lixá-lo bem, por cima e pela base, para o que pode empregar uma lixa convencional ou qualquer calçada de cimento.

Aperfeiçoada a forma, passe estearina ou cera de boa qualidade e terá um time de botão capaz de vencer qualquer campeonato da modalidade.

Quanto aos peixes, tenho que indagar: será que ela já comeu um tambaqui assado na brasa? Não desses de viveiro, mas dos que vêm interior, pescados em nossos lagos. A costela é um manjar e o peixe, em forma de caldeirada (onde não pode faltar o tucupi), chega a empanzinar. Claro que é preciso saber fazer, coisa em que, reconheço, não sou especialista. Mas há muitos amazonenses que sabem. E não amazonenses, também, pois a maioria deles não se deixou contaminar pela ingratidão ou pela idiotice.

Sugiro também a sardinha. Não dá para comer em um flutuante, já que ali os preços são de hotel de luxo. Mas, como é tão simples fritá-la e deixá-la bem torrada, em qualquer lugar é possível degustar o pitéu. Se quiser algo mais sofisticado, recorra a uma pescada recheada que, também nisso, nós amazonenses, tão esculhambados pela senhora, somos exigentes.

E, glória das glórias, rendo minhas homenagens ao pirarucu de casaca, prato que corre parelhas com a tartaruga, sendo difícil dizer qual dos dois leva a palma. Óbvio que o pirarucu não pode ser confundido com bacalhau e deve se ater às suas origens, usando-se apenas os ingredientes regionais.

Da mesma forma, quanto à tartaruga, renovo a recomendação de dona Lucíola: prepare-a apenas com alfavaca, chicória e cheiro verde, sem nem pensar nessa tolice de ovo de galinha, ervilha, azeitona ou maxixe.

Se nada disso puder satisfazer a consumidora vociferante, estamos na casa do sem jeito. Há ela de ter perdido completamente o paladar, de tal sorte que será impossível contemplá-la com algo que lhe caia no gosto. Restar-lhe-á o quê?

Nada vejo, pois, sendo tão refinada, não cuido se contente mesmo com caviar, até porque não passa de ova de… peixe. Vem-me uma última lembrança, recurso final de quem, a qualquer custo, insiste em preservar as tradições amazonenses, orgulhando-se de aqui ter nascido, aqui viver, trabalhar e ser feliz.

Assim é que, como derradeiro recurso, minha firme sugestão é a de que a indigitada senhora tenha sempre à mão um candiru. Se não é tão saboroso como seus similares aquáticos, pode, de qualquer sorte, servir de consolo para quem se mostra tão intransigente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui