Manaus já tem a sua cracolândia (A face oculta de Manaus – II)

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Localizada na margem esquerda do romântico, encantador, paradisíaco e caudaloso Rio Negro, as obras de urbanização, paisagismo e de infraestrutura da nova Praia da Ponta Negra, promovida na gestão Amazonino Mendes (2009-2012), são, indiscutivelmente, do mais fino e requintado bom gosto. Sua sofisticação salta aos olhos.

Ela é de tamanho relevo e grandeza que nem mesmo o ex-prefeito, com toda a sua enorme bagagem de experiência, cultura e conhecimento, seria capaz de imaginar que em alguma parte do planeta existissem pacaviras, palmeiras areca bambu, palmeira beriva, mini-alamandas, entre outras espécies exóticas, trazidas para embelezar a nova Ponta Negra.

Isso, entretanto, é o que menos importa. Afinal, tudo ficou muito lindo lá pelas bandas da badalada praia que tem o metro quadrado mais caro da cidade, avaliado em R$ 30 mil.

Financiada pelo governo federal e pela Corporação Andina de Fomento (CAF), a nova Ponta Negra de R$ 57 milhões ganhou novo anfiteatro, três mirantes, calçadão, espelho d’ água e chafariz, além de praia perene que custou só em areia R$ 12 milhões.

O calçadão é todo em pedras portuguesas. O Espelho D’água funciona com fonte músical e iluminação a LED.

Os cinco jardins são formados por dezenas de espécies nobres e raras da flora amazônica.

O Espelho d’Água foi ornamentado com palmeiras fênix e imperiais, dracena vermelha, bromélias imperiais, mini-ixórias, mini-alamandas, cana-da-Índia e bougainvilles.

O Anfiteatro, por sua vez, com palmeiras triangulares, palmeira areca bambu, pandanus, bromélias imperiais, palmeiras cyca revoluta, grama esmeralda e amendoim e russélia.

Além dos dois mirantes e uma torre de observação, a nova Ponta Negra ganhou dois restaurantes, três quadras de vôlei, 27 mil metros quadrados de calçadão, praça de artesanato, banheiro, estacionamento, e uma rotatória com chafariz, semelhante a que foi construída na primeira etapa.

Na mesma margem do imponente, majestoso, paradisíaco e caudaloso Rio Negro, em contraste com a nova Ponta Negra, esta a Manaus Moderna, construída, coincidentemente, por Amazonino Mendes, governador do Amazonas, à época.

Ironicamente, na Manaus Moderna, também, existe um mirante de frente para o Rio Negro de onde é possível ver não as bromélias imperiais, as mini-ixórias, as mini-alamandas, cana-da-Índia e bougainvilles, mas o lado oculto e cruel de uma cidade que estarrece e agride os seus visitantes diarimente.

Improvisado em cima de uma velha caixa d’água e ocupado pelo vigia de um estacionamento de veículos, do mirante é possível ver um rio poluído, jovens dopados pelo crack e pela cocaína, o lixo, a sujeira, o trânsito atabalhoado de uma avenida que foi batizado com o nome de Manaus Moderna, os tronbadinhas, enfim, a falta de atenção absoluta do poder público.

Ao longo dos calçadões de concreto rústico, não existem ciclovias, quadras para a prática do esporte e do lazer, restaurantes, praças iluminadas ou qualquer tipo de arborização.

E nem poderia haver. Afinal, na Manaus Moderna os trabalhadores recendem a suor, e vivem abaixo da linha da pobreza.

Nos calçadões da Manaus Moderna existe, sim, muito lixo, venda de alimento ao ar livre, sem qualquer fiscalização, crianças dedicadas à cata de migalhas, além do comércio aberto, livre para a venda e o consumo de drogas.

Na Manaus Moderna existe até uma cracolândia, onde jovens, na sua maioria – homens e mulheres – se reúem para o consumo e venda do oxi ou de pedras como chamam.

“Eu vendo por que sou consumidor. Vendo pra ter dinheiro para consumir”, defendia-se um dos frequentadores da cracolância em conversa com o autor desta reporgagem, que baixou uma espécie de meia na coxa e exibiu uma boa quantidade de crack nela guardada.

– Você consome? indagou logo em seguida a um transeunte que passava pelo local.

– Sim, consumo. Respondeu.

– É R$ 10,00, informou ao aproximar-se do comprador que lhe entregou a importância correspondente em troca de uma pedra de oxi.

Enquanto comercializava o produto, uma consumidora compulsiva aproximou-se, com um copo de rum na mão, tirou do sutiã uma pedra de oxi e disse: “eu consumo mesmo. Taqui a pedra. Agora vou fumar”.

E não deu a mínima para ninguém e começou a enrolar em um pedaço de papel a pedra fragmentada misturada em tabaco tirado de um cigarro.

Debaixo de um monte de papelão, onde se escondem, outros se afogavam na fumaça produzida pela queima da substância.

Ladrões, prostitutas, traficantes (aviões), viciados em cocaína, entre outros, fazem parte da mesma família de desvalidos que se espalham pelos calcações da Manaus Moderna.

 

Nota: participou desta reportagem o repórter fotográfico Sérgio Fonseca Jr.

Os viciados cheiram sem esconder a cara. E enquanto viajam entorpecidos por um mundo que quase sempre não tem volta não dão a menor importância para o click do fotógrado Sérgio Fonseca Junior.

A modernidade e os olhos do poder público está longe da Manaus Moderna.

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