O deputado estadual Comandante Dan (Republicanos) afirmou que os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 revelam a falência da atual política estadual para o setor. Embora o Amazonas tenha registrado redução expressiva das mortes violentas intencionais e da maioria dos roubos em 2025, o levantamento mostra crescimento de modalidades como receptação, tráfico de drogas, tentativas de homicídio, lesões corporais, violência doméstica e sexual, além de crimes praticados contra crianças e adolescentes.
Para Comandante Dan, no entanto, a redução dos homicídios e dos roubos não significa necessariamente que a sociedade amazonense esteja mais segura. Na avaliação do deputado, a retração da violência letal pode estar associada à consolidação da hegemonia territorial de uma organização criminosa, com diminuição dos confrontos entre grupos rivais e ampliação da chamada governança criminal sobre comunidades e atividades econômicas ilícitas.
“Os homicídios diminuíram, inclusive os feminicídios, mas diversos outros crimes cresceram de maneira extremamente preocupante. Chega a ser assustador verificar os índices de violência doméstica e sexual. Dizer que a violência está menor no estado é uma balela, uma figura de linguagem. Na prática, temos uma sociedade muito mais violenta, vulnerável e refém do crime organizado”, afirmou.
Entre os indicadores que mais chamam a atenção está a receptação. Os registros passaram de 1.667, em 2024, para 4.042, em 2025, aumento de 140,2%. A taxa subiu de 38,9 para 93,5 ocorrências por 100 mil habitantes. O crescimento pode indicar tanto a expansão do mercado de produtos roubados e furtados, como celulares, veículos, peças e equipamentos eletrônicos, quanto maior atuação policial contra compradores e intermediários de mercadorias de origem criminosa.
Também houve avanço nos indicadores relacionados às drogas. As ocorrências de tráfico passaram de 2.252 para 3.134, crescimento de 37,9%, enquanto a taxa estadual subiu de 52,6 para 72,5 registros por 100 mil habitantes. As apreensões de drogas aumentaram 39,1%, passando de 2.753 para 3.865 registros. Já as ocorrências de posse e uso cresceram de 12 para 18, variação de 48,6%, embora o volume reduzido exija cautela na interpretação.
Outros crimes contra a pessoa também apresentaram aumento. As tentativas de homicídio passaram de 509 para 662 registros, alta de 28,8%, enquanto as lesões corporais dolosas cresceram 13,5%, de 11.161 para 12.786 ocorrências. No campo dos crimes patrimoniais digitais, os registros de estelionato eletrônico aumentaram 28,5%, passando de 972 para 1.261, mesmo com o total de estelionatos permanecendo praticamente estável, de 20.767 para 20.862 ocorrências.
Comandante Dan, que comandou a Polícia Militar do Amazonas entre 2008 e 2011 e idealizou, durante sua gestão, o programa Ronda no Bairro, afirmou que a política de segurança pública não pode ser avaliada apenas pela quantidade de homicídios. Segundo ele, é necessário observar o conjunto de indicadores e a capacidade do Estado de impedir que organizações criminosas controlem territórios, mercados ilegais e relações sociais.
“A redução da letalidade é importante e toda vida preservada deve ser comemorada. O problema é transformar um único indicador em propaganda e ignorar que o tráfico aumentou, a receptação explodiu, as tentativas de homicídio cresceram e milhares de mulheres e crianças continuam sendo ameaçadas e agredidas. Segurança pública não é apenas contar cadáveres. É garantir liberdade, proteção e autoridade legítima do Estado em todo o território”, declarou.
Violência contra mulheres, crimes sexuais e vítimas menores de idade
Os indicadores de violência contra as mulheres estão entre os mais preocupantes do levantamento. As ameaças contra vítimas do sexo feminino passaram de 18.858 para 30.455 registros, crescimento de 60% e aumento absoluto de 11.597 ocorrências em apenas um ano. A taxa alcançou 1.416,9 registros por 100 mil mulheres. Os casos de perseguição, conhecidos como stalking, aumentaram 73,5%, passando de 2.155 para 3.775.
As lesões corporais praticadas contra mulheres em contexto de violência doméstica cresceram 17,4%, de 4.852 para 5.752 vítimas. Os registros de descumprimento de medidas protetivas passaram de 1.433 para 1.863, aumento de 28,8%. As tentativas de homicídio de mulheres cresceram 10,4%, de 184 para 205 vítimas, enquanto as tentativas de feminicídio passaram de 107 para 109, alta de 0,9%.
Em contraponto, as mortes consumadas de mulheres diminuíram. Os homicídios de vítimas do sexo feminino caíram 20,2%, passando de 77 para 62 casos, e os feminicídios recuaram 31,7%, de 29 para 20. Para o deputado, a redução não pode ocultar o crescimento das ameaças, agressões, perseguições e violações de decisões judiciais que antecedem, em muitos casos, as formas mais graves de violência.
Os crimes sexuais também avançaram. Os registros de estupro cresceram 5,7%, de 390 para 416, enquanto os estupros de vulnerável passaram de 1.161 para 1.353, aumento de 15,4%. Somadas as duas modalidades, o estado registrou 1.769 ocorrências em 2025, contra 1.551 no ano anterior, alta de 13%. Entre as vítimas mulheres, o total cresceu 14,9%, passando de 1.353 para 1.569. Os casos de assédio sexual aumentaram 6,1%, e os de importunação sexual, 10,9%.
Entre crianças e adolescentes, os registros de abandono de incapaz passaram de 205 para 322, crescimento de 58,6%. Os casos envolvendo produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil saltaram de 24 para 85, aumento de 257,7%. Também cresceram os registros de maus-tratos, em 21,8%; exploração sexual infantil, em 25,6%; e lesão corporal em ambiente doméstico, em 15,5%.
Os estupros de crianças e adolescentes passaram de 1.216 para 1.342 vítimas, aumento de 11,4%. Na faixa entre 10 e 13 anos, os registros cresceram 15,6%, de 549 para 643. Para Comandante Dan, os números demonstram a necessidade de reforçar a rede de proteção, integrar as forças de segurança aos serviços de saúde, educação e assistência social e ampliar os mecanismos de denúncia, prevenção e responsabilização dos agressores.
“Uma política que comemora a diminuição dos homicídios, mas não consegue impedir o avanço da violência dentro das casas, das ameaças contra mulheres, dos abusos contra crianças e da expansão dos mercados criminosos, está longe de poder ser considerada bem-sucedida. O Amazonas precisa de uma estratégia permanente, territorializada e integrada, que devolva ao Estado o controle das comunidades e assegure proteção concreta às pessoas”, concluiu.






